A tecnologia evolui. E nós?
No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, ainda havia muita gente com medo do que aconteceria com os computadores. Na virada de 1999 para 2000, tivemos o famoso Bug do Milênio, quando acreditava-se que os computadores poderiam simplesmente enlouquecer por causa da mudança de data.
Mas, para quem viveu aquela época, a tecnologia não estava apenas nos computadores. A comunicação também estava mudando.
Quem nunca recebeu uma daquelas famosas cartinhas que alguém colocava debaixo da porta? Era uma mensagem de otimismo, de amor ou simplesmente uma corrente e, no final, vinha a célebre ameaça: “Repasse esta cartinha para mais 10 pessoas conhecidas e, se não fizer isso, você terá azar em dobro.”
E jogue a primeira pedra quem nunca teve uma mãe, uma avó ou alguém da família que recebia uma dessas e fazia questão de repassar.
Hoje pode parecer engraçado, mas aquilo também era uma forma de comunicação viral. Só que, naquela época, para uma mensagem chegar a dez pessoas, alguém precisava escrever, imprimir, copiar ou passar adiante fisicamente.
Depois veio a internet.
E a velocidade mudou completamente.
Em tempos de Inteligência Artificial, em que o mundo passa novamente por uma grane evolução tecnológica, talvez seja interessante lembrar de outras vezes em que a tecnologia mudou completamente a nossa maneira de trabalhar, criar e até de entender o mundo.
E digo isso porque eu já vivi uma dessas revoluções. Na verdade, mais de uma.
No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, ainda havia muita gente com medo do que aconteceria com os computadores. Na virada de 1999 para 2000, tivemos o famoso Bug do Milênio, quando acreditava-se que os computadores poderiam simplesmente enlouquecer por causa da mudança de data. Hoje parece quase engraçado pensar nisso, mas naquela época a possibilidade de uma pane tecnológica em escala mundial parecia coisa de filme de ficção científica.
E olha onde chegamos.
Naquele período, a internet ainda estava praticamente engatinhando. Hoje colocamos músicas, fotografias, vídeos e praticamente parte da nossa vida dentro da “nuvem”, em data centers espalhados pelo mundo.
Mas existe uma coisa curiosa nessa evolução toda: a tecnologia parece evoluir muito mais rápido do que a nossa capacidade de aprender a lidar com ela.
E isso me lembra uma história que vivi pessoalmente.
Quando eu acreditei nos gatinhos
Em 2001, quando trabalhava em uma grande editora, uma colega chegou horrorizada com uma notícia que havia visto. Um homem teria conseguido criar gatinhos dentro de jarros de vidro.
Nós acreditamos.
O boato circulou primeiro por e-mail (como quase todos os hoaxes da época) e só depois os jornais começaram a noticiar e, diante das imagens, ficamos realmente desesperadas. Eu e ela começamos a ligar para polícia, bombeiros, Defesa Civil, zoológico, sociedade protetora dos animais… enfim, fizemos um furdunço absurdo.
Só depois descobrimos que aquilo era uma montagem. Tratava-se do famoso Bonsai Kitten, (clique aqui para abrir a página que fez uma cópia do original) uma brincadeira criada na internet que apresentava fotografias manipuladas e uma história completamente falsa sobre gatos sendo moldados dentro de recipientes de vidro. (Mais informações no final desse artigo)
Hoje eu olho para isso e penso: “Como pudemos acreditar?”
Mas eram os anos 2000.
A questão é que, anos depois, continuamos acreditando em fotografias e vídeos que vemos na internet. Só que agora a tecnologia ficou infinitamente mais sofisticada.
Hoje podemos criar uma pessoa que nunca existiu, colocar palavras na boca de alguém que nunca foram ditas, clonar uma voz e produzir um vídeo extremamente convincente.
Então fica a pergunta: será que não estamos entrando em uma nova fase de aprendizado, na qual teremos que reaprender a pensar antes de compartilhar alguma coisa?
Talvez o desafio da Inteligência Artificial não seja apenas aprender a utilizá-la.
Talvez seja aprender a duvidar do que vemos.
A história se repete
E já que estamos falando de informação que parece verdadeira, isso me lembra A Guerra dos Mundos.
Em 1938, Orson Welles apresentou no rádio uma adaptação da obra de H. G. Wells que utilizava recursos semelhantes aos de um noticiário. Durante muito tempo, o episódio foi contado como um enorme exemplo de pânico provocado pela transmissão. Pesquisas posteriores mostraram que essa dimensão provavelmente foi exagerada, mas o caso continua sendo interessante porque demonstra como a forma de apresentar uma informação pode influenciar profundamente a maneira como ela é recebida.
Mudou o meio.
Antes era o rádio.
Depois vieram televisão, internet, redes sociais e agora a Inteligência Artificial.
A tecnologia muda. O nosso cérebro continua tentando entender aquilo que recebe.
E já que estamos falando de histórias absurdas que podem provocar consequências reais, naquele período também tivemos a repercussão do famoso caso do rato na Coca-Cola, que chegou a gerar enorme repercussão e prejuízo para a empresa.
É aí que entra uma questão que me preocupa mais do que a própria tecnologia: uma informação falsa pode produzir consequências verdadeiras.
Pode causar medo, indignação, prejuízo e até destruir uma reputação.
Mas a arte sempre sobreviveu
E existe outro assunto que me faz pensar muito na Inteligência Artificial: a arte.
Quando surgiu o cinema mudo, dizia-se que o teatro iria desaparecer.
Quando o cinema passou a ser falado, novamente disseram que o teatro iria desaparecer.
Depois veio o cinema colorido, o rádio, a televisão, o vídeo, a internet, o streaming…
E o teatro continua aí.
Sou uma pessoa otimista e gosto de acreditar que a arte não morre.
Ela se adapta.
Talvez seja isso que aconteça agora com a Inteligência Artificial.
Isso não significa que profissões não serão afetadas. Serão. Algumas tarefas desaparecerão, outras serão automatizadas e novas funções surgirão.
E eu sei disso porque já vivi exatamente essa situação.
Eu já estive do outro lado
Em meados de 1995, fui trabalhar como diagramadora em um sindicato. Lá conheci um daqueles diagramadores “raiz”, que fazia as coisas praticamente de maneira artesanal e não sabia mexer no Aldus PageMaker.
Um dia ele me disse:
“A minha profissão, como eu conheço hoje, está morrendo!”
E ele estava certo.
Até então, a diagramação podia envolver máquina de escrever, tiras de papel, cola, régua e muitos cálculos. O diagramador precisava imaginar a página, calcular tamanho de título, corpo do texto, colunas e espaços e montar tudo fisicamente.
Então chegou o computador.
Chegou o PageMaker.
E aquele profissional que não conseguiu acompanhar a mudança acabou ficando para trás.
Eu acompanhei.
E isso mudou a minha profissão.
Hoje olho para ferramentas como Canva e Inteligência Artificial e vejo algo muito parecido acontecendo novamente.
Uma pessoa pode abrir uma ferramenta, escolher um modelo e criar em poucos minutos algo que antes exigiria horas de trabalho de um designer ou diagramador.
Isso afeta diretamente profissionais como eu.
E seria ingenuidade fingir que não.
Agora nos resta uma escolha: ou aprendemos a trabalhar com esse “monstro”, ou ficamos para trás como aquele profissional que não conseguiu acompanhar a chegada do computador.
Só que existe uma diferença
A experiência.
Isso é algo que eu aprendi depois de tantos anos trabalhando.
Uma máquina pode gerar uma imagem, editar um vídeo, escrever um texto, criar uma voz ou reproduzir determinado estilo. Mas tudo aquilo que acumulamos durante a vida — nossas experiências, referências, memórias, erros, sentimentos e repertório — também participa do processo criativo.
E isso me lembra muito a ficção científica.
Durante décadas, escritores como Isaac Asimov e Gene Roddenberry imaginaram tecnologias que pareciam impossíveis. Robôs, computadores inteligentes, viagens espaciais e civilizações que hoje ainda parecem distantes.
Mas, no fundo, essas histórias nunca foram apenas sobre máquinas.
Eram sobre o ser humano diante delas.
Talvez seja justamente essa a grande questão agora.
A tecnologia está evoluindo.
Nós também precisamos evoluir.
Não adianta termos ferramentas capazes de criar imagens perfeitas se não aprendermos a reconhecer uma imagem falsa.
Não adianta termos acesso a uma quantidade praticamente infinita de informação se não soubermos diferenciar informação de conhecimento.
Não adianta criarmos máquinas cada vez mais inteligentes se nós mesmos não aprendermos a pensar melhor.
Eu já vivi uma revolução tecnológica quando a diagramação deixou de ser feita como antes e passou para o computador.
Agora estou vivendo outra.
Não sei exatamente onde isso vai terminar.
Mas talvez essa seja a nossa nova etapa de evolução: não competir com a tecnologia, mas aprender a conviver com ela sem perder aquilo que nos torna humanos.
Porque, no fim das contas, a tecnologia evolui. E nós?
Bug do Milênio
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Ano: 1999–2000
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O que foi: Temor de que sistemas digitais falhassem na virada para o ano 2000.
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Desfecho: Problema foi amplamente prevenido com atualizações de software; não houve colapso global.
Cartinhas da corrente
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Ano: Décadas de 1980–2000 (popularizadas no Brasil).
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O que foi: Bilhetes que pediam para repassar mensagens a várias pessoas, sob ameaça de azar.
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Desfecho: Fenômeno cultural sem consequências reais, mas precursor das correntes digitais e do spam.
Bonsai Kitten
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Ano: 2000–2001
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O que foi: Site criado por um estudante do MIT mostrando gatinhos em jarros, supostamente moldados como plantas bonsai.
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Desfecho: Era uma montagem em Photoshop; rapidamente desmascarado como hoax. Organizações de defesa animal denunciaram, e o FBI chegou a investigar. O site foi retirado do ar.
Em 25 de abril de 2001 – coluna Netcetera, de Sérgio Dávila
Título: “A morte e os gatinhos-bonsai”
Link: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2504200114.htm
Nela o colunista já trata o assunto como lenda urbana/hoax e explica que é mentira (bem antes da matéria mais famosa de 21 de maio).
Outras menções brasileiras da época (todas de maio de 2001):
- Novo Milênio (site de Santos/SP) – “Gatos bonsai são um grande trote”
https://www.novomilenio.inf.br/ano01/0105a011.htm
(texto de início de maio de 2001, diz que o boato “está desembarcando em maio/2001 no Brasil”) - Revista IstoÉ – 23 de maio de 2001
Pequena nota na seção Século 21 chamada “Gatos engarrafados”
Caso do rato na Coca-Cola
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Ano: 2003
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O que foi: Consumidor alegou ter encontrado um rato dentro de uma garrafa de Coca-Cola.
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Desfecho: O caso foi investigado e considerado improcedente; a empresa abriu fábricas para fiscalização e reforçou protocolos de qualidade. O episódio gerou grande repercussão e prejuízo de imagem.
A Guerra dos Mundos
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Ano: 1938 (rádio)
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O que foi: Transmissão radiofônica de Orson Welles simulando invasão alienígena.
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Desfecho: Muitos ouvintes acreditaram ser real, gerando pânico. Tornou-se exemplo clássico de como mídia pode manipular percepções.
Diagramador raiz vs. PageMaker
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Ano: 1995
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O que foi: Transição da diagramação manual (papel, cola, máquina de escrever) para softwares como Aldus PageMaker.
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Desfecho: Profissionais que não se adaptaram perderam espaço. Hoje, ferramentas digitais e IA (como Canva) democratizam o design gráfico.

